sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Viver é um rasgar-se e remendar-se

Vivemos numa sociedade do "descartável", li há uns tempos.

Bem verdade. Tudo é descartável, desde os objectos (estragou-se, deita-se fora),  animais de estimação (que impiedosamente são lançados para as bermas da estrada), até às relações (o namorar só "para ver se realmente dá alguma coisa e o sentimento aparece. Ele é que tem de me adorar e não o inverso") .

Não há cedências de parte nenhuma, há apenas o egoísmo e a cultura do "eu é que interesso, o outro que se oriente". Pede-se ajuda e a primeira pergunta que se ouve é "Mas em que é que isso me beneficia a MIM?". Não há entreajuda, mas sim um mecanismo quase animalesco de self-promoting e "se eu não consigo subir, vou deitar os que estão acima de mim abaixo". Até o ajudar o outro, acaba por se tornar um acto egoísta, como ouvi uma voluntária uma vez dizer "Só faço isto para colocar no currículo."


Tive uma professora que gostava de apelidar esta sociedade, onde o rebanho e a igualdade é promovida de "gente com síndrome da marradinha": se um faz, o outro tem de fazer. No meio de tanta egocentrismo e do "culto do eu", é estranho que realmente sempre que alguém tente fazer uma coisa diferente, haja tanta dificuldade em fazermos algo que nos torna únicos, não é?

Com o aparecimento das redes sociais, ainda pior: partilhamos o que nos dá gosto fazer e, com o avanço desde Big Brother social, perdemos a noção do que significa "espaço pessoal": sentimo-nos na necessidade de criticar e apontar o dedo a tudo quanto a pessoa faça ou deixe de fazer que lhe dê prazer. "Casaste-te na casa dos 20 anos, sem estares estável financeiramente! Blasfémia, se fosse eu não fazia assim!" "O vídeo/post que colocaste não me agrada, não deverias escrever ou filmar mais".

E se em vez de rasgarmos e quebrarmos constantemente as nossas interacções e relações, se pudessemos em vez disso consolidar e construir, trabalhando em conjunto para um propósito comum? Lembro-me sempre da parábola em que um pai, para explicar aos filhos a importância de permanecerem juntos, pediu-lhes para irem buscar ramos, simbolizando cada um deles como individuais. Se pegados um a um, seriam certamente mais fáceis de transportar, mas também de quebrar. Todos juntos, eram inquebráveis.

Hoje, sexta-feira, poderá ser um bom dia para reflexão e revisão de conhecimentos/valores. Durante esta semana, quantas vezes tomou decisões egoístas e quantas altruístas? Vendo-nos de fora, estamos contentes com a pessoa que somos? O que posso fazer para tornar este mundo um bocadinho melhor?

Já Cícero o dizia:

“Non nobis solum nati sumus.

(Não nascemos só para nós mesmos)